O voo 259 - Uma história de terror by Midu Gorini


O voo 259
 Uma história de terror.

        Os fatos relatados a seguir podem ter ocorridos desta forma ou de forma muito semelhante a esta, com o tempo estes fatos transformam-se em lenda e cada um os relatam à sua maneira, contudo os dados gravados na caixa preta da aeronave, não mudam. De qualquer forma os trágicos fatos ocorreram uma década e meia, antes da chegada do segundo milênio.
*
        Em 1990, o avião pressurizado de alta performance com bimotor turboélice mais veloz, moderno e charmoso do disputado mercado da aviação civil de passageiros, era sem dúvida alguma o Embraer EMB-120 Brasília. Uma aeronave fabricada com a mais alta tecnologia da época pela empresa brasileira Embraer, possuía capacidade para transportar 30 passageiros mais 03 tripulantes, piloto, copiloto e aeromoça. Os seus dois motores turbopropulsores Pratt & Whitney, eram basicamente turbinas a jato acionando uma hélice quadripás Hamilton, gerando potência que proporcionava uma velocidade de cruzeiro próxima a 600 Km/h.
        O avião voava a uma altitude de 32 mil pés com alcance de 1.500 km, portanto uma aeronave excelente para voos de curta distância, com essas características o Embraer Brasília se tornou um grande sucesso comercial. Sendo utilizado em larga escala para o transporte de passageiros das companhias aéreas regionais espalhadas pelo mundo, principalmente Europa e EUA.
 **
        O avião brasileiro começou a voar nos Estados Unidos pela companhia americana ASA - Atlantic Southeast Airlines, esta companhia em 1995 possuía 83 aviões turbopropulsores em sua frota para voos regionais de curta distância, a maioria deles Embraer Brasília, aeronave confortável e confiável. Esta empresa também possuía pilotos e tripulação treinados e experientes com horas de voo a fio, além de um eficiente protocolo de manutenção dos seus aviões. Onde a empresa seguia a risca as recomendações fornecidas pelos fabricantes dos componentes da aeronave e da própria Embraer no caso de seus aviões Brasília, a principal fonte de lucros da Atlantic Southeast Airlines.
        No entanto a robustez e segurança da aeronave, além da eficiência da manutenção da Atlantic Southeast Airlines se perderam na ineficiência das boas práticas de engenharia e protocolos de inspeção, manutenção e reparação da Hamilton Standard, fabricante das hélices quadripás do Embraer EMB-120 Brasília. A empresa Hamilton Standard devido a uma inspeção de rotina ineficaz e infeliz, simplesmente não conseguiu diagnosticar uma fadiga grave de material, caracterizada por pequenas rachaduras no interior de uma das quatro pás da hélice do motor esquerdo, do avião Brasília da Atlantic Southeast Airlines.
***
        Esta aeronave inspecionada de forma inadequada faria dias depois o infausto voo 529. Assim começou uma história repleta de dramaticidade, heroísmo, dor e superação, onde a devastação físico-emocional foi enorme, a dor ultrapassou em muito os seus tênues limites. Uma história onde a lei da gravidade foi desafiada ao extremo, nas suas medidas de forças e de pesos por praticamente dez agonizantes minutos, por dois excelentes pilotos.
*** *
        21/09/1995, às 12h23min com tempo bom e céu parcialmente nublado, o voo 529 do Brasília da Atlantic Southeast Airlines decolou com meia hora de atraso para o seu segundo voo do dia, com 26 passageiros e 03 tripulantes a bordo, decolou do Hartsfield-Jackson Atlanta International Airport rumo à Gulfport. Um vôo de 570 km com pouco mais de 01h de duração. O avião estava em boas mãos, era pilotado pelo experiente comandante Ed Gannaway, copilotado pelo não menos competente primeiro oficial Matt Warmerdam. Os passageiros também estavam em boas mãos, à aeromoça Robin Fech cuidava da segurança e do conforto deles, a bordo do voo 529.
    A decolagem se deu de forma normal e rotineira, exceto talvez pelo desconforto sentido pelo copiloto Matt, ele achava o cockpit do Embraer Brasília pequeno demais para os seus quase dois metros de altura e alguns quilos a mais. Forçando o copiloto a criar alguns “truques de pilotagem”, despertando nele uma relação de amor e ódio pela aeronave, mas nada que comprometesse a sua eficiente copilotagem do avião. Logo após a decolagem Matt dá as tradicionais boas vindas aos passageiros pelo rádio “Boa tarde senhoras e senhores, bem vindos a bordo do voo 529 de Atlanta, Geórgia da Atlantic Southeast Airlines, com destino a Gulfport, Mississipi, estamos voando a 12 mil pés...”.
*** **
        O voo seguia tranquilo, agora a 18 mil pés de altitude e com o piloto automático ligado, o comandante recebe instruções do controlador de voo em terra para subir até 24 mil pés. O avião não alcançará essa altitude, ouve-se um estrondo impressionante como se alguém estivesse golpeando iradamente o Brasília com uma força gigantesca, grosseira, descomunal de forma contínua, o microfone do cockpit capta o som das várias pancadas, esses sons são gravados na caixa preta da aeronave ás 12h43min25s
        Era uma das 04 pás da hélice esquerda se rompendo e se soltando destruindo o motor que explodiu, danificando, deformando e arrancando parte da asa, provocando uma instabilidade grave no avião. A asa tem sua função de sustentação comprometida, fazendo o avião perder altitude, os restos do motor e da hélice geram uma força de arrasto aerodinâmico extraordinária, no entanto sem produzir o empuxo necessário para fazer o avião ganhar altitude. Tudo isso agindo em conjunto tornava praticamente impossível estabilizar e pilotar a aeronave, o piloto automático se desliga, o comandante Ed assume os comandos. Alarmes do cockpit soam indicando perda da pressão de óleo e do motor esquerdo, o avião dá fortes quinadas para a esquerda e começa a perder altitude rapidamente. 30 m/s ou 1.600 m/min.
       O comandante diz ao primeiro oficial Matt “eu não consigo segurar esta coisa, ajude-me a segurá-la”. Matt ajuda Ed tentar estabilizar o avião de forma precária, durante esse procedimento ele se comunica com os controladores de voo “nós tivemos uma falha no motor”, declarando em seguida “mayday” (emergência).
       Os passageiros começam a entrar em pânico, mas a aeromoça Robin controla a situação com maestria, acalmando-os e elucidando a todos que o Embraer Brasília era desenhado para voar com um só motor. Contudo a visão dos passageiros pelas janelas esquerdas do avião era aterrorizadora, o motor completamente a mostra, sem carenagem com as suas peças retorcidas expelindo fluidos e óleo. Os restos da hélice mais deslocada ainda para a esquerda, totalmente destroçada, a trepidação dentro da aeronave dava a certeza que o fim estava próximo.
        Alguns passageiros rezam, outros escrevem mensagens, todos atônitos, porém sem pânico a aeromoça Robin dava tudo de si para dar uma luz de esperança mansa a eles. Entretanto a situação se agrava, soa o alarme de fogo no cockpit, a fumaça do motor explodido entra pelo sistema de ventilação do ar condicionado e toma conta do interior da aeronave, a respiração se torna difícil, os pilotos colocam as suas máscaras de oxigênio.
        O comandante corta o combustível do tanque da asa esquerda, o fogo se apaga a fumaça se esvai, ele pede para o seu copiloto embandeirar a hélice esquerda, mudando assim o seu angulo e diminuindo a força aerodinâmica de arrasto, não funciona, o avião segue instável quinando implacavelmente para a esquerda e perdendo altitude, os pilotos lutam bravamente, evitam que o Embraer Brasília entre em uma espiral fatal rumo ao chão.
     Na medida em que a aeronave continuamente perdia altitude, ganhava uma velocidade demasiadamente alta de aproximação à pista, anunciando um pouso monomotor de emergência dificílimo. O comandante neste momento desliga os alarmes que soavam irritantemente no cockpit, testa os comandos de pilotagem, um a um, e com muita perícia consegue levantar o nariz do avião e a velocidade se reduz até atingir os 300 Km/h, contudo a velocidade ideal para um pouso bimotor normal seria de 210.
        Às 12h45mim32s, ou seja, 02min07s após a fratura total de uma das pás da hélice o improvável acontece. Os pilotos conseguem estabilizar a aeronave precariamente a 10.300 pés, em seguida eles se comunicam com a aeromoça Robin pelo interfone. O copiloto Matt reafirma o que todos já sabiam a gravidade da situação depois da explosão do motor esquerdo, informa que declararam emergência, estavam tentando conduzir o avião de volta para Atlanta e pede para ela preparar os passageiros para um pouso de emergência.
        Assim a aeromoça fez com voz firme de comando, dando as primeiras instruções para os passageiros, sem, no entanto gerar pânico entre eles, depois reafirmou a todos que a aeronave poderia voar e pousar com um só motor. Só então, o comandante teve tempo disponível para olhar pela janela da cabine e tem a real noção dos estragos devastadores, ele teme pelo pior, motor explodido estava pendurado do lado de fora, justificando o enorme arrasto aerodinâmico. O avião se mantém precariamente estável, todavia continua a perder altitude em uma razão que torna impossível o regresso do voo 259 a Atlanta, distante a 90 km.
        O comandante Ed decide pousar o avião no aeroporto mais próximo e no menor tempo possível. Para dificultar em muito a sinistra situação surge mais um fator complicador, a aeronave começa a voar entre espessas camadas de nuvens, impossibilitando qualquer chance de voo visual dos pilotos. Eles não teriam como visualizar o aeroporto antes da aproximação final. 
*** ***
        Às 12h46min20s, 03mim05s após Brasília perder um motor, o controlador de voo em terra indica ao comandante, a alternativa mais próxima para um pouso de emergência. Distante a apenas 16 km do voo 529 estava o aeroporto West Geórgia Regional, em Carrollton, uma pista asfaltada com 1.524 m margeada a 300 m por bosques e algumas propriedades rurais. 
       O comandante Ed decide pousar neste aeroporto, o voo 259 segue com a sua realidade rumo ao seu destino, será que o Brasília conseguirá alcançar a pista de pouso? Esta era a luta heroica dos pilotos, a aeronave passa pela espessa camada de nuvens e o comandante Ed não visualiza o pequeno aeroporto, o Brasília perde altitude rapidamente, a sua velocidade alta, 220 Km/h.
      O primeiro oficial diz “onde o danado está?” em seguida pede orientação ao controlador de voo, ele informa que o aeroporto está à esquerda a 10 km, uma pequena distância longa demais para este Embraer Brasília. A aeromoça desconsertada visualiza as copas das árvores, sabe que a aeronave não chegará ao aeroporto, ela reforça sem pânico as instruções para o pouso de emergência, “cabeça entre as pernas”, solicita mais uma vez para os passageiros se livrarem dos objetos pontiagudos ou cortantes.
        No cockpit, a batalha final dos pilotos, o comandante Ed pede a ajuda do primeiro oficial na pilotagem do avião, Matt indica uma clareira entre as árvores, Ed concorda resignado. Poucos segundos depois a caixa preta grava a última frase dita no cockpit, Matt diz “Amy, eu te amo”.
        Depois disso o som do trem de pouso baixando, som da fuselagem raspando nas copas de algumas árvores frondosas e por fim o do forte impacto a 220 km/h no solo, dividindo a fuselagem do avião em 04 partes, separando a cabine dos pilotos do restante da aeronave, que ficou dividida em 03 partes. Exatamente ás 12h52min46s, 9min20s depois de uma das pás da hélice estraçalhar o motor do avião, a heroica luta dos pilotos, Ed Gannaway e Matt Warmerdam, havia terminado com um saldo altamente positivo. Mais uma vez o improvável acontece de forma insofismável, nenhuma das 29 pessoas a bordo do Embraer EMB-120 Brasília no voo 259 da Atlantic Southeast Airlines estava morta ou gravemente ferida, exceto talvez pelas lesões sofridas pelo comandante, ele se encontrava nocauteado em estado comatoso sobre o manche..   
*** *** *
        Logo após a queda do voo 529 apenas o silêncio, um silêncio que pesava como chumbo, terrível e implacável silêncio, que enchia os ouvidos e a alma aliviada de todos. Contudo o cheiro de combustível se tonava cada vez mais insuportável, anunciava sem piedade a eminente explosão dos tanques de combustíveis, situados nas asas destruídas durante o acidente. Oito passageiros com ferimentos leves saem aterrorizados, desnorteados, desesperados da aeronave fugindo do fogo anunciado, entre eles um funcionário do ramo industrial chamado David Mc Corkell.
        A aeromoça Robin Fech também poderia fazê-lo, mas não o fez, ela tratou de socorrer os demais passageiros que não conseguiram sair por seus próprios meios do avião, pois estavam com ferimentos de média gravidade, fraturas ou presos entre os escombros. Gemidos começam a ressoar pelo ar, prestativa a aeromoça se esforça para atender a todos.
        Um minuto após a queda do voo 259 da Atlantic Southeast Airlines a sorte de grande parte dos passageiros e da tripulação se acaba, o pior dos pesadelos se concretiza impiedosamente. O combustível que vazava copiosamente pelas asas entra em contato com as faíscas da fiação elétrica arrebentada da aeronave, o avião arde em chamas que atingem mais de 10 m de altura.
         A aeromoça Robin Fech se encontra encurralada com vários passageiros entre a fuselagem dividida do avião e a implacável barreira de fogo e fumaça tóxica que se aproximava ameaçadoramente, se eles ficassem ali sem ação alguma o destino deles já estava selado.
      Portanto não havia escolha, a única saída era atravessar o mais rapidamente possível a terrível barreira de chamas e espessa fumaça que ardia em altíssima temperatura. E assim foi feito com o auxílio da heroica aeromoça, corpos incandescentes saiam um a um com os seus gritos aflitos da horrenda barreira, a pele se separava do rosto, do corpo queimado em sua maior parte, alguns rolavam pela relva tentando se livrar das chamas, a situação só piora. Robin finalmente consegue sair dos escombros da fuselagem com queimaduras graves, lacerações pelo corpo e fratura no punho esquerdo, mesmo assim socorre os passageiros gravemente queimados, exige a ajuda dos sobreviventes com ferimentos leves paralisados, em estado de choque com a terrível visão da fúria dos infernos infernais.
        Entretanto a aeromoça não consegue ver e nem escutar através das intensas labaredas misturadas com a espessa fumaça, os gritos de Dawn Dumm, presa dentro de uma das 03 partes da fuselagem dividida do avião, pendido ajuda para ela e sua mãe.
*** *** **
        Na outra parte dividida, o cockpit, às coisas também iam de mal a pior para os dois pilotos, Ed inconsciente aparentemente em coma profundo não recobrará jamais os seus sentidos, o fim para ele estava próximo, infelizmente o seu destino estava selado. Matt com o ombro esquerdo deslocado vê a fumaça tomar conta, o copiloto luta desesperadamente com um pequeno machado, especialmente feito para despedaçar o para-brisa da aeronave.
        Mas sem forças e sem espaço suficiente devido à grande deformação sofrida pelo cockpit, Matt não consegue romper as camadas do resistente acrílico transparente do para-brisa. Ele consegue fazer apenas um pequeno buraco por onde busca desesperadamente o ar para respirar, um sopro de vida que lhe dá a chance de gritar incessantemente por socorro.
       David Mc Corkell, o funcionário que conseguiu sair com ferimentos leves do avião, estava com a sua vida salva, no entanto escuta a voz sofrida do copiloto e resolve colocar a sua vida em risco. Poucos homens se aproximariam de um cockpit prestes a explodir em chamas como ele o fez, David pega o machadinho pelo pequeno buraco aberto no para-brisa e vê angustiado o cilindro de oxigênio atrás do copiloto se perfurar e se transformar em um maçarico sobre o corpo de Matt. O copiloto agoniza em dor, o corpo do piloto também arde completamente envolto nas chamas, no entanto felizmente para Ed, ele não sente mais a dor, o piloto já estava morto pela inalação da fumaça tóxica exalada.
        Então David começa a golpear freneticamente o para-brisa, uma labareda de fogo sai pelo buraco aberto queimando mais ainda o copiloto, ele é obrigado a se afastar. Contudo heroicamente David volta com o pequeno machado em sua mão e golpeia alucinadamente aquele para-brisa em chamas, não se importando se queimava a sua mão. Neste exato momento chega para ajudar David, o policial Guy Pop, ele é um dos primeiros socorristas a chegar ao local do acidente e retira o copiloto Matt do cockpit com 90% do corpo queimado, mas vivo e lúcido.
*** *** ***
        As equipes de socorro conseguem regatar com queimaduras graves pelo corpo, Dawn Dumm e sua mãe. Duas pessoas morreram na aeronave, um passageiro e o piloto, outra morreu logo após no hospital, outras sete morreram nos trinta dias seguintes ao acidente devido à gravidade de suas queimaduras. A décima e última vitima do voo 259 da Atlantic Southeast Airlines, morreu de infarto fulminante do coração quatro meses após a queda do Embraer EMB-120 Brasília.
       Um simples e belo memorial foi erguido na Comunidade Burwell a 50 km de Atlanta. Este memorial está localizado atrás da Igreja Metodista Shiloh e relembra os nomes das dez vítimas fatais do voo 259.
        Muitos dos sobreviventes tiveram a síndrome do sobrevivente, onde entre outros sintomas o indivíduo se culpa por estar vivo e/ou de autocondenação por estar vivo sem tentar salvar os que morreram. Outros indicaram as ações da aeromoça Robin Fech como fator primordial para a salvação de suas vidas, por essas ações a aeromoça foi homenageada pelo Estado da Geórgia, ela nunca mais voltou a trabalhar como aeromoça.
        O copiloto Matt Warmerdam, depois de 50 cirurgias plásticas e prolongada terapia, voltou a voar em 2002 pilotando os aviões da Atlantic Southeast Airlines. Em 2005 Matt ganhou o prêmio “Pacientes de Coragem – Triunfo sobre a adversidade”, oferecido a ele pela Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos. A Organização Fraternal Militar de Pilotos concedeu a Matt o seu Medalhão de Honra por sua ação durante os nove minutos e vinte segundos que precederam o acidente.

*Nota do Autor: O conto literário "O voo 259 – Uma história de terror" foi baseado em fatos reais, onde os nomes citados também são reais.
Copyright © 2011 Midu Gorini. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. 

O voo 259
 Uma história de terror.

        Os fatos relatados a seguir podem ter ocorridos desta forma ou de forma muito semelhante a esta, com o tempo estes fatos transformam-se em lenda e cada um os relatam à sua maneira, contudo os dados gravados na caixa preta da aeronave, não mudam. De qualquer forma os trágicos fatos ocorreram uma década e meia, antes da chegada do segundo milênio.
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        Em 1990, o avião pressurizado de alta performance com bimotor turboélice mais veloz, moderno e charmoso do disputado mercado da aviação civil de passageiros, era sem dúvida alguma o Embraer EMB-120 Brasília. Uma aeronave fabricada com a mais alta tecnologia da época pela empresa brasileira Embraer, possuía capacidade para transportar 30 passageiros mais 03 tripulantes, piloto, copiloto e aeromoça. Os seus dois motores turbopropulsores Pratt & Whitney, eram basicamente turbinas a jato acionando uma hélice quadripás Hamilton, gerando potência que proporcionava uma velocidade de cruzeiro próxima a 600 Km/h.
        O avião voava a uma altitude de 32 mil pés com alcance de 1.500 km, portanto uma aeronave excelente para voos de curta distância, com essas características o Embraer Brasília se tornou um grande sucesso comercial. Sendo utilizado em larga escala para o transporte de passageiros das companhias aéreas regionais espalhadas pelo mundo, principalmente Europa e EUA.
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        O avião brasileiro começou a voar nos Estados Unidos pela companhia americana ASA - Atlantic Southeast Airlines, esta companhia em 1995 possuía 83 aviões turbopropulsores em sua frota para voos regionais de curta distância, a maioria deles Embraer Brasília, aeronave confortável e confiável. Esta empresa também possuía pilotos e tripulação treinados e experientes com horas de voo a fio, além de um eficiente protocolo de manutenção dos seus aviões. Onde a empresa seguia a risca as recomendações fornecidas pelos fabricantes dos componentes da aeronave e da própria Embraer no caso de seus aviões Brasília, a principal fonte de lucros da Atlantic Southeast Airlines.
        No entanto a robustez e segurança da aeronave, além da eficiência da manutenção da Atlantic Southeast Airlines se perderam na ineficiência das boas práticas de engenharia e protocolos de inspeção, manutenção e reparação da Hamilton Standard, fabricante das hélices quadripás do Embraer EMB-120 Brasília. A empresa Hamilton Standard devido a uma inspeção de rotina ineficaz e infeliz, simplesmente não conseguiu diagnosticar uma fadiga grave de material, caracterizada por pequenas rachaduras no interior de uma das quatro pás da hélice do motor esquerdo, do avião Brasília da Atlantic Southeast Airlines.
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        Esta aeronave inspecionada de forma inadequada faria dias depois o infausto voo 529. Assim começou uma história repleta de dramaticidade, heroísmo, dor e superação, onde a devastação físico-emocional foi enorme, a dor ultrapassou em muito os seus tênues limites. Uma história onde a lei da gravidade foi desafiada ao extremo, nas suas medidas de forças e de pesos por praticamente dez agonizantes minutos, por dois excelentes pilotos.
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        21/09/1995, às 12h23min com tempo bom e céu parcialmente nublado, o voo 529 do Brasília da Atlantic Southeast Airlines decolou com meia hora de atraso para o seu segundo voo do dia, com 26 passageiros e 03 tripulantes a bordo, decolou do Hartsfield-Jackson Atlanta International Airport rumo à Gulfport. Um vôo de 570 km com pouco mais de 01h de duração. O avião estava em boas mãos, era pilotado pelo experiente comandante Ed Gannaway, copilotado pelo não menos competente primeiro oficial Matt Warmerdam. Os passageiros também estavam em boas mãos, à aeromoça Robin Fech cuidava da segurança e do conforto deles, a bordo do voo 529.
    A decolagem se deu de forma normal e rotineira, exceto talvez pelo desconforto sentido pelo copiloto Matt, ele achava o cockpit do Embraer Brasília pequeno demais para os seus quase dois metros de altura e alguns quilos a mais. Forçando o copiloto a criar alguns “truques de pilotagem”, despertando nele uma relação de amor e ódio pela aeronave, mas nada que comprometesse a sua eficiente copilotagem do avião. Logo após a decolagem Matt dá as tradicionais boas vindas aos passageiros pelo rádio “Boa tarde senhoras e senhores, bem vindos a bordo do voo 529 de Atlanta, Geórgia da Atlantic Southeast Airlines, com destino a Gulfport, Mississipi, estamos voando a 12 mil pés...”.
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        O voo seguia tranquilo, agora a 18 mil pés de altitude e com o piloto automático ligado, o comandante recebe instruções do controlador de voo em terra para subir até 24 mil pés. O avião não alcançará essa altitude, ouve-se um estrondo impressionante como se alguém estivesse golpeando iradamente o Brasília com uma força gigantesca, grosseira, descomunal de forma contínua, o microfone do cockpit capta o som das várias pancadas, esses sons são gravados na caixa preta da aeronave ás 12h43min25s
        Era uma das 04 pás da hélice esquerda se rompendo e se soltando destruindo o motor que explodiu, danificando, deformando e arrancando parte da asa, provocando uma instabilidade grave no avião. A asa tem sua função de sustentação comprometida, fazendo o avião perder altitude, os restos do motor e da hélice geram uma força de arrasto aerodinâmico extraordinária, no entanto sem produzir o empuxo necessário para fazer o avião ganhar altitude. Tudo isso agindo em conjunto tornava praticamente impossível estabilizar e pilotar a aeronave, o piloto automático se desliga, o comandante Ed assume os comandos. Alarmes do cockpit soam indicando perda da pressão de óleo e do motor esquerdo, o avião dá fortes quinadas para a esquerda e começa a perder altitude rapidamente. 30 m/s ou 1.600 m/min.
       O comandante diz ao primeiro oficial Matt “eu não consigo segurar esta coisa, ajude-me a segurá-la”. Matt ajuda Ed tentar estabilizar o avião de forma precária, durante esse procedimento ele se comunica com os controladores de voo “nós tivemos uma falha no motor”, declarando em seguida “mayday” (emergência).
       Os passageiros começam a entrar em pânico, mas a aeromoça Robin controla a situação com maestria, acalmando-os e elucidando a todos que o Embraer Brasília era desenhado para voar com um só motor. Contudo a visão dos passageiros pelas janelas esquerdas do avião era aterrorizadora, o motor completamente a mostra, sem carenagem com as suas peças retorcidas expelindo fluidos e óleo. Os restos da hélice mais deslocada ainda para a esquerda, totalmente destroçada, a trepidação dentro da aeronave dava a certeza que o fim estava próximo.
        Alguns passageiros rezam, outros escrevem mensagens, todos atônitos, porém sem pânico a aeromoça Robin dava tudo de si para dar uma luz de esperança mansa a eles. Entretanto a situação se agrava, soa o alarme de fogo no cockpit, a fumaça do motor explodido entra pelo sistema de ventilação do ar condicionado e toma conta do interior da aeronave, a respiração se torna difícil, os pilotos colocam as suas máscaras de oxigênio.
        O comandante corta o combustível do tanque da asa esquerda, o fogo se apaga a fumaça se esvai, ele pede para o seu copiloto embandeirar a hélice esquerda, mudando assim o seu angulo e diminuindo a força aerodinâmica de arrasto, não funciona, o avião segue instável quinando implacavelmente para a esquerda e perdendo altitude, os pilotos lutam bravamente, evitam que o Embraer Brasília entre em uma espiral fatal rumo ao chão.
     Na medida em que a aeronave continuamente perdia altitude, ganhava uma velocidade demasiadamente alta de aproximação à pista, anunciando um pouso monomotor de emergência dificílimo. O comandante neste momento desliga os alarmes que soavam irritantemente no cockpit, testa os comandos de pilotagem, um a um, e com muita perícia consegue levantar o nariz do avião e a velocidade se reduz até atingir os 300 Km/h, contudo a velocidade ideal para um pouso bimotor normal seria de 210.
        Às 12h45mim32s, ou seja, 02min07s após a fratura total de uma das pás da hélice o improvável acontece. Os pilotos conseguem estabilizar a aeronave precariamente a 10.300 pés, em seguida eles se comunicam com a aeromoça Robin pelo interfone. O copiloto Matt reafirma o que todos já sabiam a gravidade da situação depois da explosão do motor esquerdo, informa que declararam emergência, estavam tentando conduzir o avião de volta para Atlanta e pede para ela preparar os passageiros para um pouso de emergência.
        Assim a aeromoça fez com voz firme de comando, dando as primeiras instruções para os passageiros, sem, no entanto gerar pânico entre eles, depois reafirmou a todos que a aeronave poderia voar e pousar com um só motor. Só então, o comandante teve tempo disponível para olhar pela janela da cabine e tem a real noção dos estragos devastadores, ele teme pelo pior, motor explodido estava pendurado do lado de fora, justificando o enorme arrasto aerodinâmico. O avião se mantém precariamente estável, todavia continua a perder altitude em uma razão que torna impossível o regresso do voo 259 a Atlanta, distante a 90 km.
        O comandante Ed decide pousar o avião no aeroporto mais próximo e no menor tempo possível. Para dificultar em muito a sinistra situação surge mais um fator complicador, a aeronave começa a voar entre espessas camadas de nuvens, impossibilitando qualquer chance de voo visual dos pilotos. Eles não teriam como visualizar o aeroporto antes da aproximação final. 
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        Às 12h46min20s, 03mim05s após Brasília perder um motor, o controlador de voo em terra indica ao comandante, a alternativa mais próxima para um pouso de emergência. Distante a apenas 16 km do voo 529 estava o aeroporto West Geórgia Regional, em Carrollton, uma pista asfaltada com 1.524 m margeada a 300 m por bosques e algumas propriedades rurais. 
       O comandante Ed decide pousar neste aeroporto, o voo 259 segue com a sua realidade rumo ao seu destino, será que o Brasília conseguirá alcançar a pista de pouso? Esta era a luta heroica dos pilotos, a aeronave passa pela espessa camada de nuvens e o comandante Ed não visualiza o pequeno aeroporto, o Brasília perde altitude rapidamente, a sua velocidade alta, 220 Km/h.
      O primeiro oficial diz “onde o danado está?” em seguida pede orientação ao controlador de voo, ele informa que o aeroporto está à esquerda a 10 km, uma pequena distância longa demais para este Embraer Brasília. A aeromoça desconsertada visualiza as copas das árvores, sabe que a aeronave não chegará ao aeroporto, ela reforça sem pânico as instruções para o pouso de emergência, “cabeça entre as pernas”, solicita mais uma vez para os passageiros se livrarem dos objetos pontiagudos ou cortantes.
        No cockpit, a batalha final dos pilotos, o comandante Ed pede a ajuda do primeiro oficial na pilotagem do avião, Matt indica uma clareira entre as árvores, Ed concorda resignado. Poucos segundos depois a caixa preta grava a última frase dita no cockpit, Matt diz “Amy, eu te amo”.
        Depois disso o som do trem de pouso baixando, som da fuselagem raspando nas copas de algumas árvores frondosas e por fim o do forte impacto a 220 km/h no solo, dividindo a fuselagem do avião em 04 partes, separando a cabine dos pilotos do restante da aeronave, que ficou dividida em 03 partes. Exatamente ás 12h52min46s, 9min20s depois de uma das pás da hélice estraçalhar o motor do avião, a heroica luta dos pilotos, Ed Gannaway e Matt Warmerdam, havia terminado com um saldo altamente positivo. Mais uma vez o improvável acontece de forma insofismável, nenhuma das 29 pessoas a bordo do Embraer EMB-120 Brasília no voo 259 da Atlantic Southeast Airlines estava morta ou gravemente ferida, exceto talvez pelas lesões sofridas pelo comandante, ele se encontrava nocauteado em estado comatoso sobre o manche..   
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        Logo após a queda do voo 529 apenas o silêncio, um silêncio que pesava como chumbo, terrível e implacável silêncio, que enchia os ouvidos e a alma aliviada de todos. Contudo o cheiro de combustível se tonava cada vez mais insuportável, anunciava sem piedade a eminente explosão dos tanques de combustíveis, situados nas asas destruídas durante o acidente. Oito passageiros com ferimentos leves saem aterrorizados, desnorteados, desesperados da aeronave fugindo do fogo anunciado, entre eles um funcionário do ramo industrial chamado David Mc Corkell.
        A aeromoça Robin Fech também poderia fazê-lo, mas não o fez, ela tratou de socorrer os demais passageiros que não conseguiram sair por seus próprios meios do avião, pois estavam com ferimentos de média gravidade, fraturas ou presos entre os escombros. Gemidos começam a ressoar pelo ar, prestativa a aeromoça se esforça para atender a todos.
        Um minuto após a queda do voo 259 da Atlantic Southeast Airlines a sorte de grande parte dos passageiros e da tripulação se acaba, o pior dos pesadelos se concretiza impiedosamente. O combustível que vazava copiosamente pelas asas entra em contato com as faíscas da fiação elétrica arrebentada da aeronave, o avião arde em chamas que atingem mais de 10 m de altura.
         A aeromoça Robin Fech se encontra encurralada com vários passageiros entre a fuselagem dividida do avião e a implacável barreira de fogo e fumaça tóxica que se aproximava ameaçadoramente, se eles ficassem ali sem ação alguma o destino deles já estava selado.
      Portanto não havia escolha, a única saída era atravessar o mais rapidamente possível a terrível barreira de chamas e espessa fumaça que ardia em altíssima temperatura. E assim foi feito com o auxílio da heroica aeromoça, corpos incandescentes saiam um a um com os seus gritos aflitos da horrenda barreira, a pele se separava do rosto, do corpo queimado em sua maior parte, alguns rolavam pela relva tentando se livrar das chamas, a situação só piora. Robin finalmente consegue sair dos escombros da fuselagem com queimaduras graves, lacerações pelo corpo e fratura no punho esquerdo, mesmo assim socorre os passageiros gravemente queimados, exige a ajuda dos sobreviventes com ferimentos leves paralisados, em estado de choque com a terrível visão da fúria dos infernos infernais.
        Entretanto a aeromoça não consegue ver e nem escutar através das intensas labaredas misturadas com a espessa fumaça, os gritos de Dawn Dumm, presa dentro de uma das 03 partes da fuselagem dividida do avião, pendido ajuda para ela e sua mãe.
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        Na outra parte dividida, o cockpit, às coisas também iam de mal a pior para os dois pilotos, Ed inconsciente aparentemente em coma profundo não recobrará jamais os seus sentidos, o fim para ele estava próximo, infelizmente o seu destino estava selado. Matt com o ombro esquerdo deslocado vê a fumaça tomar conta, o copiloto luta desesperadamente com um pequeno machado, especialmente feito para despedaçar o para-brisa da aeronave.
        Mas sem forças e sem espaço suficiente devido à grande deformação sofrida pelo cockpit, Matt não consegue romper as camadas do resistente acrílico transparente do para-brisa. Ele consegue fazer apenas um pequeno buraco por onde busca desesperadamente o ar para respirar, um sopro de vida que lhe dá a chance de gritar incessantemente por socorro.
       David Mc Corkell, o funcionário que conseguiu sair com ferimentos leves do avião, estava com a sua vida salva, no entanto escuta a voz sofrida do copiloto e resolve colocar a sua vida em risco. Poucos homens se aproximariam de um cockpit prestes a explodir em chamas como ele o fez, David pega o machadinho pelo pequeno buraco aberto no para-brisa e vê angustiado o cilindro de oxigênio atrás do copiloto se perfurar e se transformar em um maçarico sobre o corpo de Matt. O copiloto agoniza em dor, o corpo do piloto também arde completamente envolto nas chamas, no entanto felizmente para Ed, ele não sente mais a dor, o piloto já estava morto pela inalação da fumaça tóxica exalada.
        Então David começa a golpear freneticamente o para-brisa, uma labareda de fogo sai pelo buraco aberto queimando mais ainda o copiloto, ele é obrigado a se afastar. Contudo heroicamente David volta com o pequeno machado em sua mão e golpeia alucinadamente aquele para-brisa em chamas, não se importando se queimava a sua mão. Neste exato momento chega para ajudar David, o policial Guy Pop, ele é um dos primeiros socorristas a chegar ao local do acidente e retira o copiloto Matt do cockpit com 90% do corpo queimado, mas vivo e lúcido.
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        As equipes de socorro conseguem regatar com queimaduras graves pelo corpo, Dawn Dumm e sua mãe. Duas pessoas morreram na aeronave, um passageiro e o piloto, outra morreu logo após no hospital, outras sete morreram nos trinta dias seguintes ao acidente devido à gravidade de suas queimaduras. A décima e última vitima do voo 259 da Atlantic Southeast Airlines, morreu de infarto fulminante do coração quatro meses após a queda do Embraer EMB-120 Brasília.
       Um simples e belo memorial foi erguido na Comunidade Burwell a 50 km de Atlanta. Este memorial está localizado atrás da Igreja Metodista Shiloh e relembra os nomes das dez vítimas fatais do voo 259.
        Muitos dos sobreviventes tiveram a síndrome do sobrevivente, onde entre outros sintomas o indivíduo se culpa por estar vivo e/ou de autocondenação por estar vivo sem tentar salvar os que morreram. Outros indicaram as ações da aeromoça Robin Fech como fator primordial para a salvação de suas vidas, por essas ações a aeromoça foi homenageada pelo Estado da Geórgia, ela nunca mais voltou a trabalhar como aeromoça.
        O copiloto Matt Warmerdam, depois de 50 cirurgias plásticas e prolongada terapia, voltou a voar em 2002 pilotando os aviões da Atlantic Southeast Airlines. Em 2005 Matt ganhou o prêmio “Pacientes de Coragem – Triunfo sobre a adversidade”, oferecido a ele pela Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos. A Organização Fraternal Militar de Pilotos concedeu a Matt o seu Medalhão de Honra por sua ação durante os nove minutos e vinte segundos que precederam o acidente.

*Nota do Autor: O conto literário "O voo 259 – Uma história de terror" foi baseado em fatos reais, onde os nomes citados também são reais.
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