A ESCOLHA by Midu Gorini



FOI COMO um vulcão em erupção, puro como as águas cristalinas que nascem nas montanhas rumo ao mar o sentimento de liberdade de Clara Maria. Porém naqueles tempos idos os costumes de uma cidadezinha do sudeste brasileiro, não eram iguais aos costumes das grandes cidades. Por isso ela sabia que na condição de uma jovem mulher não tinha a menor chance de fazer valer a sua opinião, apenas obediência e submissão ao pai, a mãe e depois ao futuro marido.
        Mesmo sabendo do risco “de ficar para titia”, algo inadmissível à época, pois isso seria uma desqualificação para Clara Maria perante a conservadora sociedade local, ela insistia com toda convicção para si mesma:
“Eu não quero ser mais uma escolhida entre tantas jovens mulheres destinadas a aplacar os desejos de um homem, aprovado pelo meu pai e se realizar na maternidade com alguns filhos, as escusas de uma vida pessoal e profissional”.
        Como por sinal sua mãe o fez e ela própria faria com seu futuro marido Arnaldo, devidamente aprovado pela família dela. Então um choro incoercível com lágrimas sonoras que serpetiaram desesperadas por longos dias e noites o rosto angelical de Clara Maria, não foi eficiente para sensibilizar o coração do seu pai e a cabeça dura da sua mãe, o casamento foi marcado.
        Sem escolha Clara Maria realizou as provas do matrimônio, disse “sim” no altar perante o padre, fez juras de amor e fidelidade frente aos convidados, recebeu um discreto beijo do noivo, sob os olhares atentos. Sorriu na festa no salão paroquial, fingindo alegria, chorou discretamente quando perdeu a virgindade sem nenhum prazer na noite de núpcias e depois viu os dias passarem iguais aos outros, dia após dia uma rotina infindável com um abominável sexo aos sábados à noite.
        Assim a vida do casal seguia até que certo dia ensolarado chegou à feliz notícia do laboratório de análise clinicas, depois de nove meses, como manda o figurino, o primeiro filho de parto normal, mais dois anos e quatro de casamento, outro parto nasceu uma filha. O casal não teve mais filhos à rotina do trabalho doméstico aumentou, na mesma medida que a pífia intimidade do casal diminuía aos sábados.
        Com o passar do tempo as crianças cresceram, Clara Maria vivia em função delas e do bem estar do marido, sempre fiel sob todos os aspectos, que vivia em função de todos na casa, um verdadeiro paizão. Às vezes Arnaldo sentia-se pai até da esposa, que não raramente lhe retribuía a atenção como filha mais velha ou irmã, companheira, amiga, esposa dedicada ao lar ou coisa que o valha.
        Mas o fato é o casal não se via mais como macho e fêmea, homem e mulher, não namoravam, nem se acarinhavam, apenas conversavam simplesmente não faziam sexo, estavam completamente assexuados, a diabetes melittus deixou Arnaldo irremediavelmente impotente.
        Clara Maria não queria outra família, amava os filhos e Arnaldo feito um irmão mais velho, tal e qual diziam um dos antigos ditados árabes “o excesso de alguma coisa é a falta de alguma coisa”, ela sentia falta de se sentir mulher, sentia falta de um homem na cama.
        Enfim Clara Maria sentia-se forte o suficiente para não ser mais a escolhida, dentre tantas jovens mulheres à época e efetuar a sua escolha a partir do seu desejo, estudou as possibilidades. Ela sem peso na consciência criou um espaço ocioso as quintas-feiras a tarde, onde passou a se relacionar em ardentes entrevistas intimas onde conheceu e sentiu orgasmos múltiplos com vários homens, ao longo dos anos subseqüentes, todos casados. Homens comprometidos até o pescoço com suas famílias, que não queriam confusão ou publicidade do fato entre amigos na mesa do botequim.
        Quando a diabetes ceifou a vida de Arnaldo, Clara Maria chorou desesperada, não se conformava em ter perdido o pai dos seus filhos. O seu companheiro de sua vida que ela amava como se fosse um irmão mais velho, durante um ano se vestiu de luto fechado, neste período não fez nenhuma entrevista intima.
        Aos cinqüenta e cinco anos, depois de um ano de luto, Clara Maria deu o seu grito de liberdade e escolheu para ser seu marido e homem até o fim dos seus dias, Agnaldo José um jovem senhor de cinqüenta e dois anos, viúvo, que correspondeu imediatamente às investidas amorosas dela. Casaram-se pouco depois com as bênçãos dos filhos e muita festa.

Copyright © 2011 Midu Gorini. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


FOI COMO um vulcão em erupção, puro como as águas cristalinas que nascem nas montanhas rumo ao mar o sentimento de liberdade de Clara Maria. Porém naqueles tempos idos os costumes de uma cidadezinha do sudeste brasileiro, não eram iguais aos costumes das grandes cidades. Por isso ela sabia que na condição de uma jovem mulher não tinha a menor chance de fazer valer a sua opinião, apenas obediência e submissão ao pai, a mãe e depois ao futuro marido.
        Mesmo sabendo do risco “de ficar para titia”, algo inadmissível à época, pois isso seria uma desqualificação para Clara Maria perante a conservadora sociedade local, ela insistia com toda convicção para si mesma:
“Eu não quero ser mais uma escolhida entre tantas jovens mulheres destinadas a aplacar os desejos de um homem, aprovado pelo meu pai e se realizar na maternidade com alguns filhos, as escusas de uma vida pessoal e profissional”.
        Como por sinal sua mãe o fez e ela própria faria com seu futuro marido Arnaldo, devidamente aprovado pela família dela. Então um choro incoercível com lágrimas sonoras que serpetiaram desesperadas por longos dias e noites o rosto angelical de Clara Maria, não foi eficiente para sensibilizar o coração do seu pai e a cabeça dura da sua mãe, o casamento foi marcado.
        Sem escolha Clara Maria realizou as provas do matrimônio, disse “sim” no altar perante o padre, fez juras de amor e fidelidade frente aos convidados, recebeu um discreto beijo do noivo, sob os olhares atentos. Sorriu na festa no salão paroquial, fingindo alegria, chorou discretamente quando perdeu a virgindade sem nenhum prazer na noite de núpcias e depois viu os dias passarem iguais aos outros, dia após dia uma rotina infindável com um abominável sexo aos sábados à noite.
        Assim a vida do casal seguia até que certo dia ensolarado chegou à feliz notícia do laboratório de análise clinicas, depois de nove meses, como manda o figurino, o primeiro filho de parto normal, mais dois anos e quatro de casamento, outro parto nasceu uma filha. O casal não teve mais filhos à rotina do trabalho doméstico aumentou, na mesma medida que a pífia intimidade do casal diminuía aos sábados.
        Com o passar do tempo as crianças cresceram, Clara Maria vivia em função delas e do bem estar do marido, sempre fiel sob todos os aspectos, que vivia em função de todos na casa, um verdadeiro paizão. Às vezes Arnaldo sentia-se pai até da esposa, que não raramente lhe retribuía a atenção como filha mais velha ou irmã, companheira, amiga, esposa dedicada ao lar ou coisa que o valha.
        Mas o fato é o casal não se via mais como macho e fêmea, homem e mulher, não namoravam, nem se acarinhavam, apenas conversavam simplesmente não faziam sexo, estavam completamente assexuados, a diabetes melittus deixou Arnaldo irremediavelmente impotente.
        Clara Maria não queria outra família, amava os filhos e Arnaldo feito um irmão mais velho, tal e qual diziam um dos antigos ditados árabes “o excesso de alguma coisa é a falta de alguma coisa”, ela sentia falta de se sentir mulher, sentia falta de um homem na cama.
        Enfim Clara Maria sentia-se forte o suficiente para não ser mais a escolhida, dentre tantas jovens mulheres à época e efetuar a sua escolha a partir do seu desejo, estudou as possibilidades. Ela sem peso na consciência criou um espaço ocioso as quintas-feiras a tarde, onde passou a se relacionar em ardentes entrevistas intimas onde conheceu e sentiu orgasmos múltiplos com vários homens, ao longo dos anos subseqüentes, todos casados. Homens comprometidos até o pescoço com suas famílias, que não queriam confusão ou publicidade do fato entre amigos na mesa do botequim.
        Quando a diabetes ceifou a vida de Arnaldo, Clara Maria chorou desesperada, não se conformava em ter perdido o pai dos seus filhos. O seu companheiro de sua vida que ela amava como se fosse um irmão mais velho, durante um ano se vestiu de luto fechado, neste período não fez nenhuma entrevista intima.
        Aos cinqüenta e cinco anos, depois de um ano de luto, Clara Maria deu o seu grito de liberdade e escolheu para ser seu marido e homem até o fim dos seus dias, Agnaldo José um jovem senhor de cinqüenta e dois anos, viúvo, que correspondeu imediatamente às investidas amorosas dela. Casaram-se pouco depois com as bênçãos dos filhos e muita festa.

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